A terapia nutricional de crianças cardiopatas congênitas

A cardiopatia congênita acomete 1 a cada 100 bebês nascidos vivos. É definida como qualquer alteração que afete a estrutura ou o funcionamento do coração, que geralmente  ocorrem nas primeiras oito semanas de gestação, justamente quando o coração do bebê está se formando. O diagnóstico pode ocorrer durante a gravidez, logo ao nascer ou anos mais tarde.

Quase toda mãe e pai/responsável de bebê com cardiopatia congênita possuem muitas dúvidas sobre como será o desenvolvimento do seu filho, a alimentação, se a cirurgia corrige o defeito do coração, se a criança vai precisar tomar medicamentos, e muitas outras dúvidas e anseios que surgem ao receber o diagnóstico.

Neste post, tentarei responder algumas das perguntas importantes relacionadas à nutrição e desenvolvimento da criança com cardiopatia congênita.

De modo simples, a cardiopatia congênita afeta o coração, órgão que bombeia sangue para o nosso corpo. O sangue é responsável por levar nutrientes e oxigênio para nossas células, se há algo errado com a quantidade de sangue bombeada, podem ocorrer alterações no funcionamento normal de todos os órgãos (pulmão, intestino, cérebro etc). Com um mau funcionamento do coração, os órgãos responsáveis pela nutrição do corpo podem não funcionar corretamente e afetar o ganho de peso e de estatura de bebês, crianças e adolescentes.

A alimentação destas crianças deve ser muito cuidadosa! Necessita de todo o suporte de profissionais especializados na área para uma condução segura e eficaz. Como todos os líquidos que são ingeridos vão parar na circulação sanguínea, temos que ter muita cautela na quantidade de hidratação e alimentação que forneceremos para estes pacientes. Outro fator importante, que pode agravar mais ainda o caso, é de bebês com desnutrição grave, que irão necessitar de uma alimentação com alta densidade energética para suprir as demandas corporais.

A forma de administração da dieta vai variar para cada caso e depende da avaliação médica e nutricional. Por exemplo, para bebês de 0-6 meses desnutridos, que amamentam exclusivamente, pode ser necessário suplementar a dieta materna, com o objetivo de aumentar as calorias lipídicas (de gordura) do leite, para auxiliar no ganho de peso. Em caso de bebês que se alimentam por fórmulas infantis (leite especializado para bebês), já existem fórmulas hipercalóricas no mercado que podem ajudar no ganho de peso, porém essas fórmulas tem um custo muito alto e não são encontradas facilmente em todas as cidades do nosso país. Para crianças que comem alimentos semi-sólidos e sólidos (acima de 6 meses de idade), o manejo nutricional se torna mais fácil, pois existem inúmeras opções de suplementação ou modificações dietéticas que podem ajudar na recuperação do estado nutricional.

É importante destacar que seguir as recomendações médicas e nutricionais é essencial! Muitos bebês possuem restrição hídrica, ou seja, a quantidade de líquidos que ele pode tomar está limitada! Isso inclui: fórmulas infantis, bebidas (incluindo água, chás, sucos) e alimentos ricos em água na sua composição. (ex: melancia, laranja, gelatina). Ofertar líquidos em maior quantidade do que o coração consegue suportar pode agravar a doença e o estado de saúde da criança! É muito comum as mães/pais reclamarem que seus filhos estão chorando de fome, pois a quantidade de líquidos que foi prescrita é muito limitada. Para isto, a equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, nutricionistas, médicos cardiopediatras, fonoaudiólogos, enfermeiros etc, irá agir buscando reduzir o estresse da criança e garantir o aporte energético, dentro do que foi prescrito pelo(a) cardiopediatra.

Os sintomas da cardiopatia congênita podem ser: cor de pele cinzenta, arroxeada ou azulada (cianose), inchaço nas mãos, tornozelos e pés, falta de ar, falta de fôlego durante atividade física, fadiga, batimentos cardíacos irregulares, tonturas, vertigens e desmaios, dor no peito etc. Ofertar muita comida a criança, ou em casos que a criança já encontra-se com sobrepeso/obesidade, podem agravar os sintomas, e consequentemente o curso da doença.

Em relação ao estado nutricional, muitas vezes, após a correção cirúrgica da cardiopatia congênita, o paciente consegue rapidamente recuperar o peso e altura normais. Em outros casos, onde a cirurgia não pode corrigir totalmente a doença, é importante que os responsáveis tenham muito zelo e responsabilidade com a alimentação, para que este paciente não tenha comprometimento importante de peso e estatura. Por isso, é essencial seguir as recomendações do nutricionista para uma alimentação segura e saudável, tanto antes como após a(s) cirurgia(s).

Atenção: cuidado ao alimentar a criança seguindo conselhos de amigos/familiares ou de informações na internet de procedência duvidosa, que não possuem estudo/formação na área nutrição e cardiopatia.

No Brasil, existem vários hospitais especializados que tratam cirurgicamente a doença. O Hospital de Messejana de Fortaleza (Ceará) possui uma enfermaria e duas UTI’s específicas para o tratamento de pacientes cardiopatas. O trabalho da equipe de nutrição é integral, multidisciplinar e humanizado. Possuímos protocolo de abreviação de jejum para pacientes em curso de cirurgia e alimentação diferenciada para mães que amamentam. Estamos buscando a implantação de um Posto de Coleta de Leite Humano, com o objetivo de envolver a mãe na alimentação do filho, mesmo quando estiver internado em uma UTI.

Falarei mais sobre os esses e outros projetos da equipe de Nutrição do HM em um próximo post. Se você tem dúvidas sobre o assunto, deixe um comentário abaixo, que procurarei ajudar!

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